Toda vida eu morei na mesma casa e essa casa sempre foi no mesmo lugar.
Terra de minha mãe, que herdou do meu avô, o lugar e o sentimento. Aprendi cedo que a vida era dura, tinha de roçar a terra enquanto meu pai tentava a vida na rua.
Com mais onze irmãos, descobri que até a falta dava pra se dividir.
Cada qual com um pouquinho, da fome, do trabalho, do frio.
Quando dava pra ir pra escola, levantávamos com a alvorada, pé no chão, frio que trincava o corpo e uma longa estrada pela frente. Ao voltar, nos esperava aquela mesma terra, aguardando ser roçada.
Plantamos milho, feijão, mandioca… mas junto com a semente, plantamos o peito na roça.
Apesar de toda dor, nosso amor prevalecia e o sorriso da nossa mãe, sustentava nossa família.
Ela cozinhava, pegava lenha, cuidava de nós, da terra e dos turistas, que naquela época chamávamos de barraqueiros.
Todos a conheciam pelo seu nome, Dona Odila. Sabíamos que ali podíamos descansar.
Aprendemos quem nós éramos, frutos do cerrado, que em terreno árduo forma belas paisagens.
Mas um dia algo estava diferente, enquanto trabalhávamos, víamos outro trançar de gente.
Com mochila nas costas, iam subindo a Serra, minha mãe perguntava se iam visitar as cachoeiras mas nada diziam a ela.
A gente via eles olhando as pedras, examinando o lugar, estavam andando pela nossa terra e nada de nos contar.
Até que um dia apareceu um pessoal do IEF perguntando tudo do nosso lar, quanto tempo morávamos e se gostávamos de lá.
A pergunta parece descabida, como não querer ficar no lugar onde por três gerações construímos nossa vida?
Fomos informados que nosso lote seria comprado, e o novo dono seria o tal do Estado.
Como pode o lugar da história de alguém ser tomado?
Esvaziado, demarcado e desterritorializado para se tornar Parque.
Me parecia que algo estava errado, nem sequer fomos consultados! Nem sobre sermos arrancados, nem sobre os destinos de todas aquelas formas vidas – humanos, plantas, bichos, animais e árvores.
A terra que diziam querer proteger era fruto do nosso manejo, da nossa escuta e do nosso trabalho.
Era terra vivida, terra com história, Cuidamos do pasto, da roça e do curral.
E de repente: para fora! Parecia que tudo já estava decidido, agora na responsabilidade do IBAMA, alguns do povoado começaram a ser pagos, mas nossa terra ninguém vinha comprar.
Continuamos morando, vivendo, trabalhando, o tempo já não passava devagar.
Nosso pai morreu e nossa mãe veio a nos deixar, ainda estávamos sentindo a perda, quando o infortúnio veio nos buscar.
Chega em nossa casa, onde nunca tínhamos visto chegar um carro, a viatura da polícia federal. Tratado como marginal, perguntei que crime cometi?
Nossas coisas sendo destruídas, nossas lembranças sendo agredidas e nos olhos daquela gente nenhuma compaixão. Expulsos da nossa própria casa, fomos deixados em uma beira de estrada.
Disseram que iam nos pagar, mas não nos deram nada.
Nem mesmo nossas camas, nos deixaram trazer.
Pensei comigo que somente o cão poderia armar algo tão dolorido de viver.
Na barreira em que nos deixaram, tivemos que nos virar, bebemos água suja e depois de um tempo todo mundo ficou doente… do corpo, da alma.
Batemos na porta da justiça e só depois de 15 anos que vieram negociar o pagamento da terra.
A indenização que o Ministério Público disse que tínhamos direito, por danos morais, nunca chegou. Já os danos, estão presentes em tantos cantos:nos últimos anos de vida da nossa mãe, na tristeza dos meus irmãos, na cirurgia que eu tive que fazer no rim depois de beber daquela água, nas memórias e nos objetos que perdemos…tudo que tínhamos era a terra, e com ela toda nossa vida foi roubada.
