Ildeu e Fatinha: Aqui me criei, aqui cheguei, aqui fiquei

4–6 minutos

O Retiro sempre foi o mundo inteiro para Ildeu. Foi onde nasceu, cresceu, aprendeu a viver como filho da terra. O barro rachava seus pés ainda menino, mas era também quem o sustentava. A roupa vinha dos sacos de açúcar que a mãe transformava em calças. A comida era o que a roça oferecia: arroz, feijão, milho, mandioca. E sempre tinha farinha, feita no forno de pedra, torrada com paciência.

Naquele tempo, havia fartura. As plantações se espalhavam pelas baixadas e era o tempo em que os passarinhos vinham porque havia roça, milho, arroz, alimento espalhado.O fogo, quando vinha, não era tragédia. Não vinha para destruir, vinha para ensinar. Abrindo caminho, renovava o pasto, deixava espaço para o gado, como se fizesse parte da ordem natural das coisas. Ildeu se lembra bem: “Antigamente, você passava o pé, assim, combatia um incêndio.

Qualquer lugar. O fogo não matava as aves, não matava nada. Ele vinha, mas a gente sabia lidar.” Era um fogo que não assustava, que pedia presença. Era fogo que se domava com o corpo, com o passo, com a criação que abria estrada e interrompia as chamas. Não havia desespero, havia manejo. Não era inimigo, era parte da vida.

Foi nesse ritmo que Ildeu cresceu. Filho de Nelson e Caetana, lavradores de sol a sol, aprendeu cedo que viver era plantar. O pai com a enxada na mão, a mãe acordando cedo para o fubá suado e o leite fresco, sempre cercada de filhos. Seis ao todo, espalhados pelos caminhos da vida. Mas só Ildeu permaneceu ali, no Retiro, como uma árvore que não aceita ser transplantada.

A infância foi de trabalho. Desde os sete anos, já ajudava a capinar arroz e feijão. Não havia sapatos. O caderno cabia dentro da sacola improvisada de pano. A escola era longe, quatro quilômetros de caminhada, e a lição do dia se misturava ao esforço da lavoura. Mas ele lembra com gratidão: “não faltava serviço, não faltava alimento. Era vida dura, sim, mas era vida boa”.

Enquanto isso, em Governador Valadares, outra infância se desenrolava. A de Fatinha.Ela foi criada pela avó, a quem chamava de mãe. Desde pequena, empurrava a carroça carregada de marmitas para os homens que trabalhavam na roça. O peso era grande, mas havia também alegria: as brincadeiras com primos, as risadas no terreiro, o sol forte que moldava a infância.

Só que a infância de Fatinha terminou cedo. Aos doze anos, foi levada para Belo Horizonte com a promessa de estudar. Mas a promessa era mentira. O estudo nunca veio. O que veio foi trabalho pesado: cuidar de criança, limpar a casa, obedecer à mulher que a mantinha afastada de sua família. Viveu cinco anos sem ver a avó, sem contato, sem salário. Trabalhou em silêncio até conseguir escapar. Fugiu apenas com a roupa do corpo e voltou para Valadares, onde reencontrou a avó.

Da roça, dos pesos, das faltas, Fatinha guardou duas coisas: o gosto pelo trabalho e a coragem de recomeçar. Foi essa coragem que a levou até a Serra do Cipó. Chegou primeiro como visitante, depois como moradora. Conseguiu trabalho em restaurante, conheceu gente, fez amizades. E um dia, no caminho de volta do serviço, conheceu Ildeu. Aos poucos, os encontros viraram companhia, as visitas viraram morada. Até que um dia ele disse: “vem morar comigo”. Ela pensou, sorriu e respondeu: “não tenho nada a perder”. E ficou.

Mas o Retiro em que ela decidiu ficar já não era o mesmo das memórias de Ildeu.O chão que ele conhecia como fartura estava sob vigilância. O roçado que alimentava famílias havia sido interditado. A vida que sempre brotara da terra estava agora cercada por proibições. A notícia veio como morte. Não se planta mais. Não se colhe. Não se reforma a casa. “Tudo o que vocês têm está guardado num banco” — diziam. Mas nunca esteve. O que havia era só a proibição. A cerca invisível. A promessa vazia. A lavoura acabou. As mandiocas secaram no chão. O roçado virou mato. O homem virou suspeito dentro da própria casa. Foi como quando a morte chega de repente. Corta um fio. Rasga a vida no meio. A vida que era não seria mais.

Ildeu permaneceu. Como árvore antiga, com raízes fundas. Fatinha chegou, como a semente que o vento trouxe e encontrou solo fértil. Juntos, levantaram paredes novas onde a casa antiga caía. Com as próprias mãos, sem ajuda, sem indenização, ergueram abrigo.E do abrigo fizeram mesa. E da mesa fizeram vida. No restaurante caseiro, o cheiro do feijão tropeiro se mistura ao vento da serra. O arroz borbulha, o frango se tempera com lembrança. Quem come ali, come também a memória: da mãe de Ildeu, que cozinhava para os filhos depois do roçado, da avó de Fatinha, que carregava marmitas na carroça para alimentar os trabalhadores. Cada prato é também um pedaço de permanência.

No Retiro, a vida deles segue entre cortes e resistências. A cada reunião, promessas de indenização que nunca chegam. A cada visita do Estado, lembranças de que ainda estão sob vigilância. Mas a cada dia, eles também reafirmam que viver ali não é concessão: é direito.

Ildeu encontra força na lembrança do pai e da mãe, na herança deixada na terra que não abandonou. Fatinha encontra sentido em ter transformado dor em escolha, em ter feito do Retiro o lugar onde finalmente pode decidir ficar. Hoje, a permanência deles é resistência.

Mas é também amor. Amor um pelo outro, amor pelo território. Amor pela certeza de que o Retiro não é apenas terra — é corpo, é herança, é promessa de futuro. No Retiro, Ildeu é uma raiz que nunca se arrancou. Fatinha é a semente que decidiu ficar.

E juntos eles fazem da vida romance: um enredo que inclui todo o quintal, suas plantas e animais e que o Estado tentou interromper, mas que segue adiante, contado em panela de ferro, em quintal de terra batida, em cada palavra que afirma — aqui nasci, aqui me criei, aqui fiquei, aqui permaneço enquanto vida eu tiver.

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