Carta: Minha mãe, Rosa

2–3 minutos

Texto escrito por Juliana Maria.

Minha mãe se chamava Rosa e nunca um nome combinou tanto com uma pessoa.Ela nasceu no alto da Serra do Cipó, cercada por montanhas, vento forte e uma natureza que parecia conversar com ela. Desde menina, aprendeu que a vida no campo era dura. Trabalhava na roça com os pais e os irmãos, ajudando a sustentar a casa. Mesmo com as mãos calejadas e os pés descalços, ela nunca reclamava, era do tipo que sorria mesmo com o coração cansado.

Mamãe sempre teve uma ligação especial com os cavalos, dizia que eles eram como ela: fortes, livres e teimosos. E era verdade, minha mãe tinha uma alma indomável, um espírito livre que não cabia em cercas nem em amarras. Foi trabalhando em fazendas que conheceu aquele que seria o pai do meu irmão e, mais tarde, o meu também. Ele era bem mais velho, já passava dos sessenta anos quando ela, com apenas vinte, decidiu se juntar a ele.

A vida ao lado dele não foi fácil. Meu pai bebia muito e, nas vezes em que a bebida falava mais alto, mamãe sofria. Foram anos de dor, de silêncio e de lágrimas escondidas. Mesmo assim, ela nunca deixou de lutar. Teve dois filhos, amou-nos profundamente, mas a violência acabou sendo mais forte do que o medo, e ela precisou ir embora. Deixou-nos aos cuidados de outras pessoas, uma decisão que a marcou para sempre, mas que salvou sua vida.

Sozinha no mundo, sem ter a quem recorrer, minha mãe recomeçou. Reergueu-se do nada, como a natureza depois da seca. E o destino, generoso como poucas vezes foi, colocou em seu caminho um homem bom, simples, trabalhador e de coração enorme. Foi com ele que ela voltou a sorrir. Quando ele faleceu, deixou-lhe uma pensão e, pela primeira vez, a mamãe pôde respirar em paz.

Com aquele dinheiro, construiu sua casa: um cantinho pequeno, mas cheio de vida. Galinhas ciscando, cavalos no pasto, o cheiro do café fresco e o som da serra ao fundo. Voltou a trabalhar com o que amava, guiando turistas em passeios a cavalo pelo Cipó, organizando cavalgadas, vendendo leite, ovos e hortaliças. Vivia com pouco, mas tinha tudo o que sempre buscou: a liberdade e a paz que eram a essência do seu ser.

Em agosto de 2017, ela se despediu da vida do jeito mais bonito e mais fiel a quem era: no curral, tirando leite da vaca, com o sol nascendo e o cheiro da terra ao redor. Partiu em silêncio, como quem apenas muda de paisagem.

Minha mãe foi uma mulher de alma imensa, uma força da natureza que o tempo não apaga.Quando penso nela, lembro do vento da serra batendo no rosto, do som dos cascos dos cavalos e do sorriso dela, cansado, mas cheio de ternura.Porque minha mãe, Rosa, foi muito mais do que uma mulher simples do campo.

Ela foi uma flor que nasceu entre pedras e nunca deixou de florescer, livre, selvagem e eterna, como o vento da serra que tanto amava.