Carmesina, Alicerce da Memória

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Entrar na casa de Carmesina, Dona Zinha, era como entrar na casa da avó. Logo à entrada, Nossa Senhora Aparecida abria seus braços, guardando em vigília aquele espaço. Erguida em um pequeno altar à beira da estrada, a santa parecia proteger as paredes azul-claras da casinha firmada no coração do distrito de Cardeal Mota. O quintal de terra, com plantas e flores que margeavam o caminho, conduzia ao chão vermelho de cimento queimado: cada detalhe anunciava a presença de uma vida que resistiu até o fim.

Zinha nascera no Retiro. Lá aprendera os gestos que moldaram sua história: plantar, colher, cozinhar, criar filhos e netos. Mas a chegada do Parque Nacional impôs a violência do desenraizamento. Não se tratava apenas de mudar de lugar, mas de ser arrancada como raiz exposta, privada do direito de permanecer no chão onde nascera. A casa em que viveu até os seus últimos dias foi cedida pelo patrão do marido — lugar onde foi construindo aos poucos uma tentativa de reprodução de uma morada-território. Ali nessa casa ergueu um lar que se tornaria testemunho de resistência.

Na sala, dois sofás se miravam como guardiões de conversas interrompidas pelo tempo. Nas paredes azuis, gastas, repousam imagens do Espírito Santo feitas de folhas e sementes, a oração de Maria passa na frente, terços, quadros da Santa Ceia. Um calendário de 2017 permanecia pregado, como se os dias houvessem parado desde a expulsão. Fotografias de Zinha com o marido, os filhos e netos misturavam-se a mensagens de afeto. Objetos simples, mas carregados de sentido, tornavam-se memória materializada, pedaços de um tempo que não cabia mais, mas que Dona Zinha insistia em preservar.

A cozinha guardava a alma da casa. Um fogão a lenha escurecia com fuligem as telhas e paredes, sinal da persistência de rotinas antigas. Nas prateleiras, utensílios alinhados, copos, jarros e panelas areadas com cuidado. As xícaras esmaltadas, penduradas poeticamente, aguardavam companhia. Quem chegava era recebido com café preto, doce e forte, preparado por mãos que transformavam o gesto cotidiano em ritual de resistência. Não era apenas bebida: era memória servida em pequenos goles, era vínculo com um tempo que a ferocidade havia tentado dissolver.

A vida de Zinha foi testemunho de um tempo em que o Retiro ainda pulsava. Ela carregava em si a lembrança dos caminhos de roça, das palmeiras de macaúba arrancadas, das casas antigas que o abandono forçado transformou em ruínas. Guardava também as marcas do vazio: a terra proibida, as águas interditadas, a continuidade interrompida. Sua memória era mais que pessoal: era território, era cultura, era tradição. Da sua boca, mesmo quando as palavras vacilavam, ouvia-se de um mundo que a ordem de outros havia tentado apagar.

O esquecimento de Zinha confundia-se com o esquecimento imposto à sua comunidade. O que nela se embaralhava com o tempo era também aquilo que o Estado decretara como interdito. A violência não foi apenas a de retirá-la da terra, mas a de transformar tradição em delito, vida cotidiana em transgressão. O modo de viver de sua gente foi reduzido à ruína, como se não houvesse lugar para ele no futuro. Mas nas frestas do que foi arrancado, Zinha guardava a chama que insistia em arder.

Em meio às perdas, havia permanência. O terço na parede, o calendário parado, o café servido, as histórias repetidas com ternura e falhas de memória — tudo se tornava alicerce. Em meio às partidas, aos abandonos forçados e às ruínas, Zinha permanecia como guardiã de um tempo que não se deixava silenciar. Como nos lembra Marilena Chauí, os velhos são “a fonte de onde jorra a essência da cultura, ponto onde o passado se conserva e o presente se prepara”. Assim foi Zinha: fonte, raiz, testemunha.Dona Zinha faleceu sem ver sua casa reerguida, sem recuperar o direito de viver no Retiro. Partiu levando consigo uma vida que não pôde retornar ao seu chão. Sua morte é também a morte de uma promessa não cumprida. Zinha partiu carregando em si a memória de um território inteiro — memória que agora cabe a nós sustentar, como quem guarda o fogo aceso para que a chama não se perca.