Viver no Retiro é, para Istael, mais que uma escolha: é destino. Nascida e criada nesse pedaço da Serra do Cipó, ela carrega no corpo e na fala as marcas de uma vida inteira dedicada à roça, à família e à fé. Aos 62 anos, mora sozinha em sua casinha, mas sua história se confunde com a de seus pais, avós, irmãos e tantos parentes que povoaram a comunidade. “Nós foi nascido e criado aqui. Era serviço dia e noite, desde pequeno”, conta, lembrando dos tempos em que a infância não cabia no brincar, mas no trabalho junto ao pai e à mãe, de sol a sol.
A casa onde cresceu já não existe como antes. Era maior, feita para abrigar todos os irmãos, mas com o tempo, após a chegada do parque, foi se arruinando. Hoje, um quarto e uma cozinha sustentam seu cotidiano. E no quintal, a mangueira plantada pelo pai que segue dando sombra e frutos, é testemunha das gerações que ali viveram. “Não tem outro lugar melhor igual aqui não”, ela afirma, convicta de que, apesar das dificuldades, o Retiro é o chão onde se sente em casa.
O trabalho da família era quase todo voltado para a subsistência. Plantavam arroz, feijão, milho, mandioca, cana, banana — “tudo o que dava na terra”. Criavam galinha, porco, vaca, cavalo. Da palmeira macaúba, extraíam azeite e sabão, num processo trabalhoso que envolvia colher, deixar “pubar”, cascar, moer e transformar. “De primeiro dava até pra vender”, lembra Istael, “mas hoje quase não tem mais macaúba, o mato tomou conta”. O que sobrava era partilhado, e muitas vezes o pagamento do esforço vinha em forma de troca: um punhado de fubá, um litro de farinha, uma banana pelo dia inteiro de trabalho. “Nós sofreu demais no mundo, mas trabalhava alegre, porque era junto, era família.”A vida no Retiro sempre esteve ligada à fé. Devota de Nossa Senhora Aparecida, Istael herdou a crença do avô, transmitida ao pai, à mãe e a todos os filhos. A fé se expressava nas rezas do cruzeiro, tradição que marcava o mês de maio com flores, papéis coloridos, caixas e cantos. “Era lindo demais”, ela suspira, lembrando das peregrinações até os três cruzeiros que existiam pela serra. Hoje, a tradição já não acontece como antes, dispersada pelas restrições impostas após a criação do Parque Nacional, mas a memória ainda pulsa em sua voz.
A vida no Retiro sempre esteve ligada à fé. Devota de Nossa Senhora Aparecida, Istael herdou a crença do avô, transmitida ao pai, à mãe e a todos os filhos. A fé se expressava nas rezas do cruzeiro, tradição que marcava o mês de maio com flores, papéis coloridos, caixas e cantos. “Era lindo demais”, ela suspira, lembrando das peregrinações até os três cruzeiros que existiam pela serra. Hoje, a tradição já não acontece como antes, dispersada pelas restrições impostas após a criação do Parque Nacional, mas a memória ainda pulsa em sua voz.
Além disso, Istael guarda uma forte crença na benzeção. Para quebrante, espinhela caída ou mal-estar que a medicina não explica, a força das plantas — guiné, folha de laranja, arruda — continua sendo proteção e cura.
Com a chegada do Parque, muita coisa mudou. “Não podia mais fazer casa, nem limpar pasto, nem aumentar nada”, conta. O modo de vida foi se estreitando, assim como a casa. Até a água, que antes enchia rios, onde ela e os irmãos nadavam carregando lenha nas costas, também diminuiu. As queimadas, causadas pela falta de “bater pasto”, uma limpeza que espantava o fogo, transformaram a paisagem, que antes era aberta e cuidada pelos moradores. Mesmo assim, Istael segue vivendo no Retiro, convencida de que esse é o seu lugar no mundo, mesmo entre perdas e dificuldades.
Entre lembranças de uma vida dura, o que fica para Istael é o valor da convivência. “Era sofrido, mas era melhor, porque a gente podia confiar em todo mundo”, diz, comparando o passado com o presente, em que percebe a vida mais marcada pela desconfiança e pela maldade. Do seu barracãozinho, com a mangueira carregada de mangas ao lado, ela sintetiza o sentimento que a liga ao território: “Aqui é lugar da gente ficar. Não tem outro lugar melhor”

