Seu Francisco, Fé e memória

3–4 minutos

Seu Francisco tem 79 anos e foi nascido e criado no Retiro. O pai, Joaquim Patrício Moreira, nascido em um lugarejo na Serra do Espinhaço por nome “Curral”, veio para o Retiro a fim de construir sua família. Ainda bem jovem, se casou com sua primeira esposa. Com o passar dos anos, acabou por enviuvar e, tempo depois, conheceu Maria Ferreira da Silva, que morava próximo à cachoeira Véu da Noiva, também na região da Serra do Cipó, que antes era denominada Cardeal Mota. Casados, morando no Retiro, Jó e Maria tiveram os filhos: Sr. Francisco e mais quatro irmãos, Raimundo, José do Carmo, Maria e Paulo, que foram criados com muito amor e luta. A casinha que por toda a vida foi lar da família, hoje já não existe mais . No presente, o que restou foi um forte alicerce de pedras, um fogãozinho e uma estante com prateleiras. Essas são marcas visíveis das histórias ali vividas, que seguem muito bem guardadas na impressionante memória de Seu Francisco.

Em sua infância, o Retiro era um lugar povoado, onde conviviam gente, bicho e plantação. “Desde lá do Córrego do Gavião até lá pertinho do Travessão tinha gente”, diz Seu Francisco, e o cuidado da terra era a própria rotina. No quintal de sua família, não faltavam pés de fruta: era laranja, jabuticaba, mexerica, manga, goiaba, limão, cajá-manga, coco licuri… e de tudo isso quem se lembra é Cidinha, que conta com carinho da sua relação de amizade com “Tia Maria”.

A beira do rio era onde se plantava a horta, aproveitando a umidade da terra. Na época de seca, cultivava-se também feijão. No tempo das águas cultivava-se arroz. E “de fora a fora”, por todas as partes, havia roça de milho e mandioca. Quando a dinâmica do clima não cumpria com o previsto, a solução era encontrada nos mistérios da fé: rezando ao pé do cruzeiro, a comunidade pedia por chuva e era atendida com precisão. Por outro lado, Seu Francisco não se esquece do dia em que o rio encheu de tal maneira que a água atingiu o alicerce de sua casa, varrendo folhas e carregando galinhas. Refletindo, ele nos conta:“a vida da gente no interior é corrida, quer dizer, ela não é ruim não, ela é muito boa… pra saúde da gente não tem coisa melhor, mas a gente passa um pouquinho de aperto”.

E estudar era um aperto à parte! A escola ficava longe e o caminho era “de trilho”, por onde só se passava a pé ou a cavalo. No trajeto, a meninada catava goiaba verde e qualquer outra folha ou fruta que servisse de merenda. As noites eram iluminadas com candeia, uma planta nativa cujas lascas podem ser acesas, e aquecidas pelo calor do fogão a lenha. Vez ou outra havia querosene para acender uma lamparina. Nessa meia-luz, a família descascava mandioca para fazer farinha, preparava coco para tirar óleo e debulhava milho para, no dia seguinte, transformar em fubá no moinho.

As plantas eram também a “medicina mais rica pra curar” e o que hoje é vendido como “remédio de bula” na farmácia, sempre foi presente de Deus no Cerrado. O conhecimento de cada planta é passado de geração em geração e, não à toa, um dos sobrinhos de Seu Francisco tanto sabe sobre esse tema. Marquinhos reconhece ter o “instinto da geração passada” e com a fé inabalável, como a do tio, traça junto com ele os planos para o futuro do lugar. A ideia é “trazer a mesma história de antigamente, a mesma emoção”. Eles pensam em reconstruir a casa com a disposição original: três quartos, sala, cozinha e paiol, onde esperamos, em breve, ser convidados para tomar um café.