Zé Levi, Filho da Terra

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Na terra onde as águas do rio Bocaina e do rio Cipó se encontram com o refúgio dos fogões à lenha de pequenas casas de pau-a-pique e barro, José Ferreira, o filho de Dorvalina Ferreira e Levi Siqueira, se tornou filho dessa terra que chama de casa. Mais conhecido como Zé do Levi, ele construiu sua história entrelaçada às águas que vertem das montanhas da Serra do Cipó e que margeiam a comunidade do Retiro. Em sua infância, Zé passou seus dias vividos nos quintais, brincando de catar as melhores pedras do fundo do rio, se conectando com as temporalidades das águas e do solo de sua terra. Com o passar dos anos, nos dias de folga de trabalho em outras fazendas, fazia pescaria no rio com os compadres, lugar em que se encontravam, desde a infância até os tempos de maturidade.

Zé relembra as peregrinações feitas pela comunidade até os Cruzeiros, as cruzes que foram enraizadas àquela terra há anos, prática que atravessou gerações inteiras: “Quando tinha muito sol juntava um punhado de gente, pegava um punhadinho de fulô e subia lá em cima com umas garrafinhas d’água e rezava o cruzeiro e jogava água no pé dele pra chover”. Em tempos de muita seca, o sentimento de abandono das águas que vêm do céu, os fazia ir rogar a Deus que molhasse a terra e suas plantações.

Já mais velho, os caminhos da vida de Zé do Levi se cruzaram com os de Cidinha, mulher forte de riso solto, natural de Cardeal Mota. Eles assentaram juntos o cotidiano nesse lugar de paz que é a Serra do Cipó. Ao lado da companheira, Zé mantém hoje o cultivo da terra e a criação de galinhas, apesar de lembrar com saudade dos tempos em que podiam plantar, criar animais e colher os frutos nativos com mais autonomia, tempos de seus pais, antes da chegada do Parque Nacional da Serra do Cipó.

Viver com aquilo que é nativo daquilo que é cultivado no lugar, fez Zé resistir às intempéries do destino, que tentou arrancar suas raízes desse território. Sua casa, construída de pau-a-pique e barro, é testemunha do trabalho de cuidado e da ancestralidade de sua família nessa terra, quando a vida na roça era autossuficiente, quase independente dos artefatos citadinos. Até hoje conservam as lamparinas, candeias e velas de tempos de outrora – e quando “a luz foge”, como ele diz, a claridade antiga volta a iluminar o presente. Zé foi um dos moradores que nunca saiu do território do Retiro. Na cidade, para ele, a vida é contrariada; lá no interior da Serra do Cipó, estes que são filhos dessa terra, se encontram com as temporalidades do sol, da chuva, dos rios, das montanhas e das matas.

A chegada do Parque Nacional culminou em mudanças nas relações com a terra. Coincide com outras transformações que foram entrelaçando a ruralidade do Retiro à modernização urbana. Em 2014, foi construída uma estrada na comunidade, que segundo Zé, conectou os moradores com a vida citadina, especialmente importante quando na presença de situações que só um hospital pode curar. A estrada, para ele, também facilitou o acesso de turistas às Serras. Essas transformações são bem-vindas aos olhos de Zé, que veio testemunhando as mudanças das gentes, bichos e plantas que convivem naquele território.

Zé mantém junto com Cidinha o cultivo de remédios medicinais, aqueles que só a terra dá. São remédios que se encontram no quintal de sua casa, nas matas ao seu redor, nas andanças pela serra, e que alimentam não só a saúde, mas a cultura do Retiro, entrelaçada ao ecossistema de encruzilhada de Cerrado e Mata Atlântica. Filho dessa terra, que é seu lugar – o Retiro – Zé do Levi por toda a vida trabalhou em roçados, plantando arroz, cana, mandioca, feijão, numa relação com a terra e com as plantas que o manteve firme, enraizado como elas. Segue, assim, vivendo ao ritmo de sua terra, que o acolhe entre plantas e bichos, montanhas e águas, amigos e família, ao lado de Cidinha, sob o olhar da Serra do Cipó, na paz do destino que escolheu viver, no seu lugar.